Programming Grails — a aventura continua

Alguns dias atrás terminei de ler o Programming Grails (Amazon), um livro sobre o framework Grails voltado para desenvolvedores experientes, que explica como funcionam várias coisas do framework e aponta vários caminhos das pedras. O autor é Burt Beckwith, conhecido na comunidade Grails por criar vários plugins úteis do Grails, escrever sobre Grails no seu blog, responder perguntas no StackOverflow, palestrar em conferências e também colaborar no desenvolvimento do próprio Grails.

Programming Grails -- Best Practices for Experienced Grails Developers

Programming Grails — Best Practices for Experienced Grails Developers

Comprei o livro na Amazon ainda antes do lançamento oficial porque sabia que sendo material do Burt seria muito bom. Não me decepcionei: o livro é excelente! Na mesma semana que comecei a ler já pude aplicar as idéias do livro, e minha compreensão do framework melhorou bastante — recomendo fortemente pra quem trabalha com o framework. O livro não é para iniciantes, todavia — para quem quer começar com Grails, pode ser melhor pegar um livro como o Grails in Action ou o The Definitive Guide to Grails 2.

Introdução a Groovy

O texto começa com uma introdução à linguagem Groovy, a linguagem usada no desenvolvimento com Grails, demonstrando várias particularidades da linguagem e sua excelente interoperabilidade com Java, explicando alguns detalhes da implementação e exemplificando as várias vantagens que a linguagem oferece em relação a Java. Já estou usando Groovy há um bom tempo, mas essa introdução esclareceu algumas coisas sobre a linguagem.

Um destaque dessa parte é a explicação sobre owner, delegate e this nas closures em Groovy. Basicamente, numa closure em Groovy, this se refere à instância da classe que contém a Closure, owner se refere ou a essa instância ou a outra closure que esteja envolvendo a closure atual, e delegate é uma variável mutável que por padrão aponta pra owner. O interessante aqui é que você pode alterar o valor de delegate em tempo de execução, e redefinir todo o comportamento da closure. Essa técnica é bastante utilizada para criar as mini-linguagens (DSLs) em Grails, tipo as que você usa nos blocos mapping e constraints numa classe de domínio.

Segue um exemplo pra ajudar a entender:

class OutraClasse {
    def metodoDaOutraClasse() {
        println "metodoDaOutraClasse()"
    }
}

class ClasseMae {
    def minhaClosure = {
        def subClosure = {
            println "this: ${this.class}"
            println "owner: ${owner.class}"
            println "delegate: ${delegate.class}"
            metodoDaOutraClasse()
        }
        subClosure.delegate = new OutraClasse()
        subClosure()
    }
}

new ClasseMae().minhaClosure()

Nesse exemplo, por causa da redefinição do delegate da subClosure(), podemos chamar métodos da OutraClasse dentro dele. O resultado de rodar esse código é:

this: class ClasseMae
owner: class ClasseMae$_closure1
delegate: class OutraClasse
metodoDaOutraClasse()

Recomendo assistir a palestra Functional Programming in Groovy, para ver um exemplo legal de uso do delegate simplificando uma API de envio de email.

Grails Internals

O livro avança falando do framework Grails, das várias escolhas que foram feitas na sua criação e evolução, e explica como criar e rodar uma aplicação, narrando o que acontece quando você roda cada comando. A seguir, Burt descreve todos os plugins incluídos na instalação padrão: para o que servem, como foram implementados e como você pode configurá-los ou desativá-los, se assim desejar.

Este capítulo define o tom do livro, no sentido de que ele é bem voltado para quem deseja saber melhor como as coisas funcionam. Por isso, ele pode ser um tanto entediante para alguém que esteja buscando algo mais receita-de-bolo garantindo gratificação imediata — o livro fala bastante nos detalhes de implementação de várias partes do framework, com a idéia de habilitar você a resolver problemas em todos os níveis de abstração envolvidos no desenvolvimento de uma aplicação Grails.

Acho que esse é o tipo de livro que é bom ter sempre por perto quando estiver desenvolvendo para poder consultar. Várias vezes desejei consultá-lo quando estava no trabalho, lembrando ter lido algo que ia ajudar no problema que estava resolvendo. Então, a dica é mantê-lo ao alcance — agora eu carrego na mochila. :)

Bem, seguindo adiante, o Burt fala de persistência com o GORM (Grails Object Relational Mapping), passando dicas de configuração pra facilitar a vida na hora de depurar o código — configurar um método nas classes de domínio para mensagens de erro mais amigáveis, um filtro pra converter brancos em nulos, entre outros.

 Spring e Injeção de Dependência

O capítulo seguinte é sobre o papel do Spring e injeção de dependência no Grails, explicando o funcionamento dos serviços Grails (que são beans do Spring com suporte a transação), vários detalhes de configuração que funcionam em cima do Spring, incluindo como integrar com outras aplicações Spring já existentes. Aqui você já deve entender que é a flexibilidade do Spring e a riqueza do ecossistema em torno dele que garantem bastante poder ao Grails e a facilidade de integrar com várias tecnologias diferentes. Acho que o Grails é um bom exemplo de tecnologia que aproveita bastante as outras soluções já existentes no mercado por isso.

Aliás, apesar de conter vários pontos excelentes, esse capítulo sobre Spring foi uma leitura um tanto árida — em alguns momentos o texto descreve detalhes de implementação de maneira complicada de entender, coisas tipo: “pra fazer <algum recurso>, Grails instancia a classe <fully qualified name da classe aqui>, que implementa a interface <outro fully qualified name aqui> e usa o adapter <ainda outro fully qualified name>, registrando um bean <nome do bean> …“!

Ficou um pouco difícil de acompanhar, especialmente por eu não estar na frente da IDE, sem poder conferir facilmente as definições das classes. Bem, eu sabia onde estava me metendo quando peguei um livro avançado, acho que o Burt fez um excelente trabalho com o livro, mas houveram esses trechos que reli várias vezes e continuei sem entender. Talvez meu conhecimento de design patterns esteja fraco — nunca fiz questão de estudá-los muito, de qualquer forma.

Hibernate

A seguir, vem o maior capítulo do livro, dissecando o uso do Hibernate com Grails, tanto com e sem o GORM. Aqui ele explica vários detalhes de funcionamento do mapeamento objeto-relacional e como usá-lo para obter o máximo de benefício. Burt sugere brincar com uma aplicação configurada com Hibernate puro (isto é, sem o plugin do Hibernate pro Grails & GORM) como um exercício útil pra entender o que Grails provê de graça pra você. 

Um trecho muito legal desse capítulo é a parte sobre caching, em que ele mostra como configurar o mecanimo de cache do Grails (usando Ehcache) e testar usando o console do Grails (grails console), conferindo as saídas do log. Compreendi melhor como funciona o esquema de cache do Grails e como tirar vantagem dele minimizando os riscos de acontecer merda. Tem uma apresentação do Burt relacionada a esse assunto disponível online, vale conferir.

Bem, ainda nesse capítulo (eu falei que era o maior do livro =P), vem uma série de dicas sobre o uso do GORM com Hibernate, incluindo um configurador de nomes para as chaves estrangeiras (porque os FK1236718237 que o Hibernate gera por padrão são crípticos demais na hora de depurar), como mapear views e subclasses, diferenças entre get/load/read e algumas dicas sobre performance. Sobre esse assunto, também recomendo ler os posts do Peter Ledbrook da série GORM Gotchas, seguem os links:

  1. http://blog.springsource.org/2010/06/23/gorm-gotchas-part-1/
  2. http://blog.springsource.org/2010/07/02/gorm-gotchas-part-2/
  3. http://blog.springsource.org/2010/07/28/gorm-gotchas-part-3/

Especificamente sobre o comportamento do método save() explicado no primeiro post dessa série GORM Gotchas, eu penso um pouco diferente dos autores do framework e sempre configuro a chave grails.gorm.failOnError=true no Config.groovy logo após criar um projeto novo em Grails. Acho que é especialmente importante fazer isso quando a equipe de desenvolvedores é um pouco heterogênea ou recém está começando a usar o framework — você evita muitas sessões de depuração quando o save() sempre ou salva ou erra berrantemente.

Integração

Em sequência tem um capítulo sobre integração, em que o livro cobre as facilidades do Grails para usar mensageria com JMS, enviar emails de forma assíncrona, criar e acessar WebServices SOAP usando os plugins CXF e CXF client, criar e acessar WebServices REST com os plugins JAX-RS e REST Client Builder e também como habilitar gerenciamento e monitoração com o plugin JMX. Ah, outra coisa legal que o Burt mostra nesse capítulo é como usar o plugin TCPMon para depurar as requisições que chegam no servidor rodando em desenvolvimento — ele funciona como um proxy rodando em outra porta e tem uma interface desktop pra inspecionar os dados da requisições, bem interessante.

Configuração

Depois tem um capítulo dedicado ao assunto de configuração, que ensina uma série de truques para organizar suas configurações. É bem útil, porque no Grails as configurações podem ficar um pouco bagunçadas, então é legal dar uma arrumada na casa de vez em quando. Como alguns arquivos suportam algumas funcionalidades especiais, às vezes são necessários alguns truques pra modularizá-los ou fazer as configurações específicas por ambiente.

Plugins

Esse capítulo é bem legal, explica como funciona o mecanismo de plugins do Grails e ensina as boas práticas na hora de criar seu próprio plugin. Curti bastante o esquema de plugins do Grails, é realmente bem poderoso: a estrutura de um plugin é bem parecida a de uma aplicação, podendo adicionar classes de domínio, controllers, filtros, recursos estáticos (Javascript, CSS), beans do Spring, e tudo o mais.

Isso quer dizer que é fácil de quebrar suas aplicações em vários plugins, bastando você manter as relações de dependências adequadas entre as classes — e o livro tem uma seção dedicada a fazer justamente isso, incluindo publicar os plugins num repositório local com o Artifactory.

Nesse mesmo capítulo, o Burt demonstra sua experiência no desenvolvimento de vários plugins detalhando seu workflow para desenvolver e testar vários plugins, usando diferentes versões do framework — muitas dicas úteis.

Segurança

“O propósito desse capítulo é assustar você.” É assim que começa o capítulo do Programming Grails sobre segurança — que é excelente, por sinal! Aqui, Burt explica vários riscos (os Top Ten da OWASP, o livro usou os de 2010, mas já saiu uma lista atual) aos quais sua aplicação pode estar vulnerável caso você não tome certos cuidados.

O livro dá várias dicas de como melhorar a segurança das aplicações, e explica como usar alguns plugins interessantes que ajudam a melhorar alguns aspectos de segurança. Como o assunto é complicado, vou apenas dizer aqui alguns pontos muito importantes que todo mundo usando Grails precisa ficar ligado:

1) Considere configurar o codec de HTML por padrão para as páginas GSP, no Config.groovy:

grails.views.default.codec = 'html'

Dessa forma, as variáveis usadas nas páginas GSP serão escapadas com HTML por padrão — a configuração (‘none’) não escapa nada, uma escolha infeliz que tem sido mantida pra não quebrar compatibilidade.

2) Não implemente seu próprio mecanismo de autenticação e autorização. Use os plugins/frameworks testados e aprovados pela comunidade (uso e recomendo o Spring Security, cujo plugin pro Grails foi feito por ninguém menos que o próprio Burt Beckwith). Tem muitos tutoriais de Grails na Internet ensinando a fazer autorização usando filtros, implicando que é fácil de fazer autorização — dica: não é! À medida que vai desenvolvendo a aplicação, você descobre que precisa de vários outros recursos relacionados: hash decente para as senhas, gerenciamento da sessão, fluxo para “esqueci a senha”, etc. Se você implementar esses recursos você mesmo, aumenta bastante o risco de acabar fazendo alguma coisa errada. Portanto, faça uso do que está disponível, invista em estudar os plugins disponíveis — vale a pena.

3) Capriche. Teste sua segurança com testes funcionais, não com testes unitários ou de integração que usam mocks e stubs. Faça revisão de código com a equipe para procurar vulnerabilidades em potencial. Mantenha-se atualizado sobre as atualizações do framework. Aprenda a fazer data binding com segurança.

Cloud, AOP e Upgrade

O livro dedica um breve capítulo explicando o deploy no Cloud, falando das vantagens/desvantagens, e explicando passo-a-passo como fazer deploy de aplicações que usam banco de dados no Cloud Foundry e Heroku, e algumas configurações para fazer escalar. Curti! =) 

A seguir, vem um trecho interessante sobre as técnicas de programação orientada a aspectos disponíveis por padrão no Grails (basicamente, as mesmas já disponíveis no Spring só que empoderadas pela linguagem Groovy), e também como adicionar outras capacidades usando o plugin AspectJ. Burt ilustra AOP com uma maneira de avisar se algum método das classes de domínio que altera o estado do banco está sendo chamado fora de um contexto de transação — pretty cool stuff!

Por fim, o último capítulo detalha os procedimentos para fazer upgrade de aplicações para versões mais novas do Grails (Burt usa um método sofisticado que inclui fazer um diff com uma aplicação nova criada com a mesma versão da aplicação legada, pra saber com precisão o que foi alterado), e faz um breve histórico das mudanças nas versões mais importantes do Grails, explicando as novidades e rumos tomados no framework.

A maior mudança foi na versão 2.0, que trouxe vários plugins novos, adotou a jQuery e muitas melhorias – e algumas quebras de compatibilidade. Algumas das mudanças que causam quebra são: os métodos nos controllers também são considerados como actions (antes eram apenas closures), os JOINs com Criteria são INNER joins em vez de LEFT joins, alguns nomes dos recursos na configuração dos logs mudaram e a inclusão do plugin resources pode forçar algumas alterações. Sempre vale conferir a documentação oficial na hora de fazer o upgrade. O Peter Ledbrook também tem algumas dicas para o upgrade para Grails 2.

Conclusão

Enfim, o livro é muito bom, recomendo fortemente pra quem esteja usando Grails, descobri várias coisas novas e ainda quero botar em prática várias idéias que aprendi nele. Como já disse no início, para quem quer começar com Grails pode ser mais adequado usar outro material antes, mas logo depois de pegar o jeito já pode partir para o Programming Grails — a satisfação é garantida. 

That’s all, folks! =)

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9 respostas para Programming Grails — a aventura continua

  1. dewes disse:

    Nunca tinha ouvido nem falar desse Groovy! Ta programando por conta ou é pra trabalho?

  2. dewes disse:

    tenho usado Python e Shell Script, java desde o CPD que não mexo mais.

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